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“O frio que a gente não pediu”

Nem todos celebram a chegada do inverno. Para alguns, junho marca o início de uma longa temporada de cobertores, chá quente e pouca vontade de enfrentar o mundo.

enrico pierro por enrico pierro
4 de junho de 2026
in Enrico Pierro
“O frio que a gente não pediu”

Junho chegou sem pedir licença e levou junto a minha vontade de sair da cama, a minha produtividade e qualquer resquício de disposição que eu ainda tinha guardado desde maio. E junto com tudo isso, levou também a minha vontade de viver. Eu perco isso no inverno. Literalmente.

Eu sofro no frio. Não é fraqueza, é caráter. Tem gente que ama o inverno, que acha bonito, que posta foto com cachecol sorrindo como se estivesse num comercial de chocolate quente. Eu não sou essa pessoa. Eu sou a pessoa que liga o aquecedor, acende a lareira, coloca três meias e ainda assim sente o pé gelado como se estivesse pisando em gelo vivo. Os dois juntos. Aquecedor e lareira. E ainda assim o pé está gelado. Sempre.

Eu não quero sair no inverno. Não quero abrir a janela, não quero encarar o mundo lá fora, não quero existir em temperatura abaixo de vinte graus. O cobertor virou meu relacionamento mais sério do ano. A gente tem compromisso, cumplicidade e uma dependência emocional que nenhum terapeuta ainda conseguiu resolver. Eu saio de casa e fico pensando nele. Volto correndo. A gente tem futuro.

Mas tem uma coisa que o frio faz que eu, contrariado, preciso admitir: ele obriga a gente a parar. O inverno não combina com pressa. Não combina com aquela vida acelerada de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Ele pede cobertor, chá, silêncio. Pede que a gente sente, respire e fique quieto por um instante.

E talvez seja exatamente isso que a gente mais precise e menos consiga no resto do ano.
Então está bom, junho. Você chegou sem avisar e levou minha vontade de viver. Mas me deu o cobertor. E por hoje, já é suficiente.

enrico pierro

enrico pierro

Carlo Enrico C Pierro ou Enrico Pierro. Nascido na década de, quando o celular foi inventado e o videogame ainda era o Atari, escreve desde pequeno. Já quis ser cientista, astrônomo, médico, advogado, astronauta e até hoje ainda não descobriu o que quer. Virou escritor de tanto desabafar escrevendo e é autor do livro As marés do meu ser, pela editora ipê das letras. O típico nerd que tirava boas notas, mas não se comportava em aula. Filho de pais sensacionais, se desenvolveu intelectualmente na mesa de jantar, onde se sentia mais à vontade por ser um taurino nato. Come mais do que fala e fala mais do que dorme, ama quebra-cabeças e jogos de celular. Tem preguiça de andar a pé e toma ansiolítico para não tremer igual um pinscher. É feliz escrevendo.

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