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O amor que não tem trilha sonora

Entre idealizações românticas e afetos reais, uma reflexão sobre o amor que permanece mesmo longe da perfeição — sem espetáculo, sem roteiro e sem garantias.

enrico pierro por enrico pierro
18 de maio de 2026
in Enrico Pierro
O amor que não tem trilha sonora

A gente aprende o amor de um jeito torto. Aprende nas músicas que colocam o sofrimento como prova de intensidade. Nas histórias em que o ciúme vira cuidado e o controle vira dedicação. Aprende que amor que dói muito é amor de verdade. E amor que não dói, talvez não seja amor de verdade nenhuma. Leva um tempo bom pra desaprender isso.

O amor que tropeça, aquele que não é perfeito, que às vezes diz a coisa errada, que trava na hora de abrir o jogo, que não sabe exatamente como amar sem se machucar no processo, esse amor não tem trilha sonora. Não tem aquela cena de cinema com chuva e iluminação perfeita. Ele tem uma conversa difícil numa cozinha mal iluminada. Tem um silêncio que durou tempo demais. Tem uma tentativa que falhou e outra que foi atrás mesmo assim. E é justamente esse que me interessa.

Porque amor que só funciona quando tudo está bem não é amor. É conveniência. Amor de verdade aparece quando as coisas ficam feias. E escolhe ficar. Não por obrigação. Não por medo de ficar sozinho. Mas porque a pessoa do outro lado vale o trabalho de atravessar o feio junto.

Tem uma diferença enorme entre amor que sufoca e amor que sustenta. O primeiro preenche todos os espaços, não deixa margem pra você respirar, cobra, vigia, transforma qualquer pausa numa ameaça. O segundo te deixa existir. Te deixa ser você sem que isso seja uma ameaça pra ninguém.

Eu demorei pra sentir essa diferença. E quando senti, entendi umas coisas sobre o passado que preferia não entender.

O amor que tropeça e segue mesmo assim não é romantismo. É escolha. Toda manhã, de novo. Sem garantia, sem contrato, sem certeza absoluta de que vai dar certo. É o risco mais humano que existe. E talvez por isso seja o que mais vale.

Cuida de quem fica mesmo quando poderia ir.

enrico pierro

enrico pierro

Carlo Enrico C Pierro ou Enrico Pierro. Nascido na década de, quando o celular foi inventado e o videogame ainda era o Atari, escreve desde pequeno. Já quis ser cientista, astrônomo, médico, advogado, astronauta e até hoje ainda não descobriu o que quer. Virou escritor de tanto desabafar escrevendo e é autor do livro As marés do meu ser, pela editora ipê das letras. O típico nerd que tirava boas notas, mas não se comportava em aula. Filho de pais sensacionais, se desenvolveu intelectualmente na mesa de jantar, onde se sentia mais à vontade por ser um taurino nato. Come mais do que fala e fala mais do que dorme, ama quebra-cabeças e jogos de celular. Tem preguiça de andar a pé e toma ansiolítico para não tremer igual um pinscher. É feliz escrevendo.

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