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No brasil, não precisa de guerra.

Enquanto cidades em guerra seguem iluminadas mesmo sob bombardeios, no brasil uma tempestade mais forte ainda consegue transformar a rotina moderna em uma experiência do século passado.

enrico pierro por enrico pierro
10 de março de 2026
in Enrico Pierro
No brasil, não precisa de guerra.

Esses dias eu estava vendo imagens da guerra. mísseis cruzando o céu, explosões, sirenes, prédios atingidos, aquela coreografia trágica que a humanidade insiste em repetir há séculos. tudo muito dramático, muito tenso, muito sério. mas teve uma coisa que me chamou atenção de um jeito meio constrangedor: as luzes.

Os prédios continuavam acesos. janelas iluminadas, ruas funcionando, apartamentos cheios de gente provavelmente assistindo à própria guerra pela televisão. bomba de um lado, sirene do outro… e a energia elétrica firme, disciplinada, trabalhando normalmente. foi impossível não pensar no brasil.

Ou melhor: em qualquer cidade brasileira quando resolve cair uma tempestade um pouco mais caprichada. porque aqui o processo é quase científico. o vento começa a soprar, o céu escurece, alguém comenta “acho que vem chuva” e imediatamente nasce uma tensão coletiva que todo brasileiro conhece muito bem.

Não é medo da chuva. é medo da luz. a tempestade nem começou e já tem gente olhando para o teto como quem observa um paciente em estado delicado. porque todo mundo sabe que a rede elétrica brasileira tem uma relação emocional muito sensível com fenômenos naturais.

Basta cinco minutos de chuva ou de vento mais forte e a eletricidade parece que é arrastada para uma realidade paralela da qual nós não fazemos parte. e pronto. acabou o espetáculo tecnológico do século xxi.

Cinco minutos antes você pagava contas no aplicativo do banco, via guerra em tempo real no celular e pedia comida por um aplicativo que promete entrega em quinze minutos.

Cinco minutos depois você está andando pela casa com o celular na mão tentando iluminar o caminho até a cozinha, procurando velas como se fosse um personagem de novela de época. daquelas bem antigas, inclusive.

É uma transformação muito rápida. o brasileiro sai da modernidade digital direto para uma experiência histórica imersiva. a geladeira vira um objeto decorativo, o wi-fi entra em estado de luto e a casa inteira passa a ter um silêncio estranho, quase solene.

E não é um apagão rápido, daqueles que duram alguns minutos enquanto alguém resolve o problema. não. às vezes são dois dias sem luz. três. quatro.

Tempo suficiente para você desenvolver uma relação afetiva com o silêncio da geladeira desligada e começar a tratar cada tomada da casa como uma peça de arqueologia industrial. o curioso é perceber que existem lugares do mundo onde caem bombas e a cidade continua iluminada. aqui não precisa de guerra. basta chover.

E talvez essa seja a grande vantagem estratégica do brasil. enquanto o resto do planeta discute mísseis, drones e sistemas de defesa sofisticados, nós já dominamos uma tecnologia muito mais avançada:

Conseguimos derrubar uma cidade inteira com uma nuvem.

enrico pierro

enrico pierro

Carlo Enrico C Pierro ou Enrico Pierro. Nascido na década de, quando o celular foi inventado e o videogame ainda era o Atari, escreve desde pequeno. Já quis ser cientista, astrônomo, médico, advogado, astronauta e até hoje ainda não descobriu o que quer. Virou escritor de tanto desabafar escrevendo e é autor do livro As marés do meu ser, pela editora ipê das letras. O típico nerd que tirava boas notas, mas não se comportava em aula. Filho de pais sensacionais, se desenvolveu intelectualmente na mesa de jantar, onde se sentia mais à vontade por ser um taurino nato. Come mais do que fala e fala mais do que dorme, ama quebra-cabeças e jogos de celular. Tem preguiça de andar a pé e toma ansiolítico para não tremer igual um pinscher. É feliz escrevendo.

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