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as coisas que não couberam

a gente se perde tentando caber nos outros — e se encontra quando começa a abrir espaço pra si

enrico pierro por enrico pierro
10 de junho de 2025
in Enrico Pierro
as coisas que não couberam

ninguém vê o que a gente esconde pra caber. o que a gente engole, dobra, silencia. tem partes nossas que foram ficando pelo caminho, porque não encaixavam, porque incomodavam, porque eram demais pra alguém. e, aos poucos, a gente vai se apertando em versões menores de si mesmo, tentando fazer parecer que tá tudo certo.

mas não tá. porque tem um custo. e o preço de não caber inteiro é alto. são pedaços que doem por dentro, sentimentos que a gente trancou, palavras que ficaram entaladas. são vontades abortadas antes de nascer, sonhos empurrados pra depois, e um depois que nunca chega.

as coisas que não couberam foram ficando em gavetas internas, que vez ou outra se abrem sozinhas. e aí transbordam em forma de angústia, ansiedade, crises sem nome. é o corpo avisando que tem partes dele que você abandonou. e que agora, doem.

ninguém devia precisar diminuir o próprio brilho pra não ofuscar alguém. ninguém devia se calar pra manter a paz. ninguém devia ter que se apagar pra ser amado. mas a gente faz. por medo de rejeição, por carência, por amor mal compreendido. até perceber que, no fim, o que não coube em alguém pode ser exatamente o que te faz ser quem é.

as coisas que não couberam merecem espaço. merecem luz. merecem perdão. não da parte do outro — mas da nossa. perdão por ter escondido tanto, por ter fingido tanto, por ter se esquecido de si. ainda dá tempo de recolher cada parte deixada pra trás e dizer: agora você pode ficar. agora você cabe.

enrico pierro

enrico pierro

Carlo Enrico C Pierro ou Enrico Pierro. Nascido na década de, quando o celular foi inventado e o videogame ainda era o Atari, escreve desde pequeno. Já quis ser cientista, astrônomo, médico, advogado, astronauta e até hoje ainda não descobriu o que quer. Virou escritor de tanto desabafar escrevendo e é autor do livro As marés do meu ser, pela editora ipê das letras. O típico nerd que tirava boas notas, mas não se comportava em aula. Filho de pais sensacionais, se desenvolveu intelectualmente na mesa de jantar, onde se sentia mais à vontade por ser um taurino nato. Come mais do que fala e fala mais do que dorme, ama quebra-cabeças e jogos de celular. Tem preguiça de andar a pé e toma ansiolítico para não tremer igual um pinscher. É feliz escrevendo.

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